Vida adulta: uma vaca em chamas
Desafio de Escrita dos Pássaros #16
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| Imagem de Arek Socha por Pixabay |
Certo dia, todos almejamos a fase adulta.
Naqueles tempos, pelos corredores da faculdade, esta estava
associada ao casamento e a um conto de fadas trivial. Isto, para alguns, já que
outros pretendiam a dependência económica dos seus progenitores e a concretização
de sonhos, alguns dos quais bizarros, para aquele tempo. Os sapos surgiram, um
dos sapatos não se perdeu no baile de finalistas, o amor deu lugar ao devaneio
e o ser perfeito revelou outra face. Nem todas as conquistas foram fáceis ou alcançadas.
Os honorários desmoronaram-se, alguns amores tornaram-se impossíveis ou
incompatíveis com casamentos previamente traçados por alguém. O Rui não viveu uma
história de amor com o João. Ainda hoje há quem diga que estão impedidos de tal
e condenados ao Inferno. O Pedro, tão cedo, disse-nos adeus, com o corpo em
chamas, face ao tratamento de uma doença que julgávamos associada a maus-hábitos.
Com o decorrer do tempo, compreendi que a justiça é utópica,
mas o mais difícil foi constatar que a vida não é justa.
De e para causas, um mar revolto manifestou-se. A esperança
e a crença de um mundo melhor, para todos, começou a esvair-se em sangue
coagulado. Lágrimas de sedimentos, puras ou não, de acordo com as memórias. Faculdades
perdidas, derrotas e quantos erros. A fase adulta chegou e eu, aqui, procuro
associar variáveis, resolver sistemas de equações, encontrar uma fórmula mágica
para o sentido da vida. A única certeza, a morte.
Enquanto isso, tenho uma mão repleta de pequenos nadas, mas
que mesmo assim procuro dar. Envelhecer é um fenómeno biológico irreversível e
o abandono o caminho fácil, neste novo mundo desprovido de valores e imerso na
falta de afetos.
O que faço, para onde vou ou o que me espera, mantenho
gentilmente em frascos de ansiedade, cujo veneno é letal. Potes de amor, na
eterna dúvida do Ser.

Boa noite, Amigo!
ResponderEliminarLi este texto e interiorizei-o... Senti que vagueou pelos velhos tempos. Recordações. Esforços de uma vida difícil, porque se uns têm tudo de mão beijada, outros têm que desdobrar para conseguir conciliar os objectivos.
Cada vez estamos mais perto do abismo. Afectos é zero. Tudo por interesses.
Não obstante, nas entrelinhas, encontro muita melancolia e ansiedade, de uma vida não valorizada mas sim sacrificada! Desculpe se estiver enganada.
Um beijinho grande.
Olá Cidália!
ResponderEliminarBoa tarde.
Não tem de pedir desculpa pela sua interpretação, mesmo se estivesse errada. Neste texto, coloquei um pouco de mim. O Pedro foi meu colega de carteira até ao 9. ano, por exemplo. Na verdade, nada é ficção (acabei de o reler). O 1.º texto mais intimista que por aqui deixo, sempre com algumas entrelinhas, Com as nossas conversas, despertou em mim a vontade de escrever como há uns anos, naquele endereço que consigo partilhei no Instagram. Provavelmente irei dividir-me entre aqui e lá. Se a escrita nos lava a alma, quem são os outros para interferir? Não têm o direito.
Beijo grande.
Obrigado pela sua presença.
Um excelente texto, PP!
ResponderEliminarbeijos
sarin
Obrigado pelo apreço, Sara.
EliminarO que achas dos comentários do blogspot comparativamente ao Disqus? Creio que, para quem, como nós, tem várias contas no Gmail, o Disqus facilita o processo.
Beijos meus.
"Potes de amor, na eterna dúvida do Ser".
ResponderEliminarForte
Só agora aqui cheguei ;)
Já eu fiquei a pensar "ah, mas escrevi isto?"
EliminarE não é que escrevi mesmo. Uma forma de ocultar aspetos da realidade, sem me expor 😉