Professores sem direito a mobilidade por doença

Inês Rocha é a jornalista responsável pelo exclusivo da Renascença de hoje. O artigoLapsos nas candidaturas deixam professores sem direito à mobilidade por doença, cuja leitura recomendo, têm como suporte, testemunhos reais. 

“Tweet”  pessoal da jornalista


Nunca ambicionei recorrer ao concurso de Mobilidade por Doença (MPD), consagrado no Despacho n.º 9004-A/2016. Também não gosto de fazer parte deste grupo de professores, dada a forma como somos "acolhidos" por algumas Direções, que não atendem às especificidades de cada caso. Os motivos maiores, os meus, prendem-se com as perdas irreversíveis, as doenças graves, o acompanhamento e apoio, os lutos, e a resiliência que nos é exigida quando o Universo parece conspirar contra nós. A linha entre cuidador e doente parece-me ténue, confundindo-se, em certos momentos.

Infelizmente, não sou perfeito. Frequentemente erro ou sou impaciente com a minha mãe, a única familiar que me resta. Dos seus problemas de saúde, muitos não estão devidamente diagnosticados, uma vez que não a consigo convencer a recorrer a médicos da especialidade. Isto, sem esquecer o peso da reforma baixa. Repartimos todas as despesas, mas a crise refutada por alguns faz-se sentir. 

Neste ano, quando me candidatei à MPD, a minha avó tinha partido há poucos meses. Na Escola, o trabalho com um projeto para a Missão UP da GALP, no qual conseguimos um dos 5 primeiros lugares, a nível nacional, requeria dedicação, dentro e fora da sala de aula, com muitas horas extraordinárias, algumas delas com tarefas fora da minha área de conforto. Ao submeter toda a documentação atinente ao concurso, não reparei no lapso numa cruz, do relatório médico. De referir que a linguagem utilizada no boletim de candidatura não é acessível a todos, sobretudo a muitos dos órgãos que certificam a necessidade deste destacamento. No entanto, as palavras escritas pela médica e o certificado da Junta de Freguesia certificam, para quem esteja alheio ao processo, tratar-se de um erro humano. Quando está escrito que a doente é portadora de incapacidade, viúva e requer do apoio do filho (único), facilmente se depreende que este necessita de destacamento, dado estar colocado a 50 km de casa, numa vila com acessos nem sempre bons.

Após o pedido de reapreciação, uma das respostas iniciais refere indeferimento do mesmo, por não se tratar de um "erro administrativo". Passado um mês, outro correio eletrónico, no qual é citado que "o seu caso encontra-se em análise". De referir que "as respostas" díspares provêm de gabinetes diferentes do ME. 

Talvez não saibam, mas no interior do país, a deslocação a um supermercado, consulta médica ou farmácia que diste 3,5 km,  ou menos, implica o recurso ao serviço de táxis, com preços que não se coadunam com muitas das reformas em vigor. Com o passar da idade, a mobilidade, a lucidez e a saúde geral entram em declínio. Por outro lado, a população do interior do país está muito envelhecida e aldeias, outrora muito povoadas, mais parecem desertos. 

Tiago Brandão, atual Ministro da Educação, raramente "dá a cara" pelo Ministério que é da sua tutela. Aliás, a sua reeleição foi incompreendida por muitos. Atendendo ao referido no artigo, questiono os exemplos de cidadania, equidade, democracia, justiça e fraternidade dados por este Ministério aos seus atores. 
Não, este não é o caminho para que os portugueses possam acreditar nos seus políticos e concomitantes políticas. 


Comentários

  1. Olá!
    Continuo a dizer, que isto, da educação está a chegar ao limite da mediocridade! O ME não dá a cara, claro que não. Não percebem nada de nada. Apenas só olhem e é a correr para os que estão por perto!

    A Educação no geral está caos! Falta professores por estes estarem esgotados derivado a sub-carga entre escola e kilometros. etc... Os alunos que são MUITO mal educados em casa e na escola são piores. Os mimados que não se pode falar mais alto... Depois temos os Pais a agredir os professores.

    Espero que, quem de direito, mude as regras da educação nas escolas, se não, daqui a 10 anos há alunos e não há professores! Ainda hoje ouvi nas noticias que uma mãe de uma aluna(o) que invadiu a escola para agredir a Professora, que se encontrava com uma gravidez de risco, e, entanto Esta a fazer a vez de uma Outra. Fiquei super mega hiper revoltada. Mas que jovens se andam a formar para o futuro? Tanta delinquência! :(
    Ontem observei um filho de 12 anos a chamar cabão ao Pai, que nem lhe respondeu. Deu-me impressão que até tem medo dele. É um miúdo que desestabiliza a sala de aula, constantemente!

    E é isto...até tudo num caos.
    Desejo-lhe muita sorte e saúde para a sua Mãe!

    -
    Olho as montanhas, sem cor
    Beijo e um excelente dia!

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  2. Obrigado, Cidália.
    A situação que descreve é muito frequente. Não duvido que o pai tenha medo do filho. Situações destas já eram observáveis em 2003, quando estive na educação especial. Com o passar dos tempos, aumentaram, face à não imposição de regras.

    Por aqui, ontem fui convocado a apresentar-me na Junta Médica. Como demonstrar o quanto esta situação me destruiu, sentindo, por um lado, culpa por não me ter apercebido do erro e fazer entender que é agora que devo apoiar a minha mãe e não quando já não há nada a fazer? Logo tive uma crise de ansiedade. Na Junta Médica parecemos animais a caminho do matadouro -, e os meus pais trabalharam num, pelo que sei o que falo - dependendo da personalidade de quem nos recebe. É horrível. Da Escola, cujos acessos são péssimos, nem o horário enviam-me, para poder definir os trajetos a seguir, de acordo com as condições climatéricas ou tenha de ficar a dormir por lá. Sinto-me... Um zero. E sou efetivo!
    Abraço e uma noite tranquila.
    P.

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  3. Voltei e reli tudo. Observei palavras fora de contexto das frases. Mas penso que me entendeu. Acontece. Desculpe.
    Amigo, cuidado com a ansiedade... Compreendo perfeitamente a sua revolta. Mas a saúde é tão importante e uma depressão não se cura em dois tempos.

    Muita força para a sua Mãe e, sobretudo para si!
    Beijinhos. Boa noite.

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  4. Eu entendi tudo, não se preocupe!
    A ansiedade é um demónio sem cura.
    Obrigado pela força.
    Beijo grande. https://media1.giphy.com/media/26ufpdEHmmBqWarpS/giphy.gif

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