Um Email à Minha Infância




De repente, em lágrimas, apontei a faca em direção ao meu ventre. Simultaneamente, as lágrimas lavavam sofregamente o meu rosto, até avistar uma folha de papel. Comecei a escrever. De todas aquelas linhas, a culpabilização pelas imperfeições, por não me sentir amado e pela solidão. 

Julguei nunca vir entender o conceito de família. O meu, era diferente dos restantes. Queria tão pouco.


Volvida uma década continuei a sonhar com uma casa humilde, com o amor à lareira e o espírito de união. De pouco me adiantava o que tinha. A sensação de rejeição por parte dos familiares ainda se tolera, mas quando um elemento está diariamente connosco, como agente supremo e ditador, as imagens tornam-se difusas.


Naquele dia tive coragem e gritei: “Não gostas de mim. Nunca gostaste de mim. Que culpa tenho por ser teu filho quando, no meu lugar, devia estar o teu afilhado? Ele parece feito à tua imagem, mas sou diferente e jamais conseguirei ser igual. Além de que não quero. Os nadas não fazem parte de mim, muito menos as aparências. Eu não pedi para ser teu filho!”
Ali fiquei, trémulo, incerto quanto a uma eventual agressão ou expulsão de casa. 

Por segundos, revi episódios da minha vida. 
A ponta da faca aproximou-se fazendo-se sentir. 
Foi então que…

                           Desafio de Escrita Os Pássaros #8 

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