Acordei nu, naquela ilha

Desafio de Escrita dos Pássaros #9




Nu, sem pudores, finalmente em sintonia com o meu Eu.

Durante anos, chamei-me Irina. Nasci com o sexo errado, num cérebro aparentemente normal. Desde cedo, senti atração por outras mulheres. 
Apesar de, na escrita, estar a utilizar o género feminino, por forma a não confundir o leitor, nunca fui “ela”. Nunca aceitei ser tomada por lésbica. Sempre me senti homem e os gostos/tendências obedeceram ao género, quando as assimetrias ainda eram evidentes.

Neste meio século de vida, nunca fui amada. A minha família, católica praticante, jamais me aceitou. Na verdade, nem tentei. Sempre estive atenta aos comentários tecidos pela minha mãe e outros familiares em diferentes contextos. Segui o ramo de investigação, mas só consegui trabalho no ensino. Os primeiros vencimentos permitiram começar a entender-me, em diferentes especialidades, nos HUC. 

Entretanto, uma vida repleta de máscaras e de um sofrimento que poucos entendem. 
Sempre odiei a roupa feminina, as minhas mamas, a menstruação, a ausência de barba, o ter de vestir-me e agir de uma forma não conducente com o meu interior. No meu percurso, foram inúmeras as situações nas quais senti-me repudiada por colegas e alunos. Sei que o meu exterior sempre evidenciou o masculino que há em mim: o cabelo, o rosto, o corpo magricelas, o tipo de pele. Quantas vezes prendi as mamas, tentado diminuí-las, refutá-las, esventrá-las. Quanto desejei uma menopausa precoce?

Um dia decidi ser feliz. Quebrei o cordão umbilical. Os tratamentos impediram-me continuar a ensinar. As ruas aceitaram-me, durante as noites frívolas, pelas quais periguei. 
Finalmente, acordei homem. O amanhã, fácil não será. Indefinido, indeterminado… 

Não sei onde estou, muito menos como vim para esta ilha. Despido, mas finalmente quem sou. As ruas, essas seguramente manter-se-ão as minhas eternas amigas.


Dedicado a um amigo, baseado em momentos seus.

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