Sobreviverei


Imagem de Enrique Meseguer por Pixabay



O grito não ecoou e a lágrima não deambulou pelo seu rosto. De repente, sentiu-se impedida de comunicar, enquanto, à sua frente, o primeiro filho, de apenas um ano, foi conduzido à última morada. Uma flor, e a primeira pá de terra sobre o pequeno caixão.


O amor nem sempre é lógico, muito menos racional. Por vezes, justifica a fuga de ambientes tóxicos. Naquele casal, marcas da rejeição parental e violência psicológica intensa. De personalidades distintas, a atração surgiu ao ponto de, em segredo, acordarem, ainda durante o namoro, gerar um novo ser.


No caos há sempre lugar à esperança. Por mais pequena que seja. Casaram. O sonho começou a dissipar-se, dando lugar à realidade. Os pais do noivo exigiram dois terços do vencimento do casal. De início, não entenderam que o bem-estar almejado não os englobava, enquanto, na forma de bens materiais, este viajava pelas linhas de comboio rumo a Lisboa. O bebé nasceu.


Progenitora pela primeira vez, deparou-se com um filho portador de deficiência. Naqueles tempos, “uma aberração”. De um amarelo intenso, rumo ao esverdeado, com um choro difícil de acalmar. Poucos eram os pais que deixavam os filhos aproximarem-se do bebé. Entretanto, lá em casa, manipulado pela mãe, ele começou a agredi-la, inclusive enquanto amamentava a cria amada, independentemente das considerações de outros.


Vítima, pelo filho ergueu armas e foi à luta, mesmo que tal acarretasse novos episódios de violência. Desde cedo sentira a rejeição dos sogros, a falsidade das expressões e olhares. Com o pouco que tinha procurou tratamento no hospital da capital. Embora soubesse que a criança não sobreviveria, não perdeu a esperança, dormindo no berçário, nas escadas daquele lugar repleto da sua dor e da de tantos outros. Da província, em silêncio, sujeitou-se ao assédio daquele velho porco no autocarro.
A mudança era inevitável. Se o amor está muitas vezes associado a uma cabana, neste caso, a esperança foi depositada numa pequena barraca. O coração tinha de manter-se quente em afetos, ao contrário do frio hostil daquele frigorífico tinham idealizado como ninho de amor.
O bebé chorou.


                           Texto baseado numa história real para o Desafio de Escrita Os Pássaros #6 

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