Assédio




Naquela manhã, encontrei o André junto à ponte, com os olhos cobertos da água daquele rio que se perdia no horizonte, o seu, cujas Tágides insistiam em chamá-lo, de forma impiedosa. Num ato irrefletido, estendi-lhe a mão esquecendo que também eu não sabia nadar, mas estas não se encontraram.

O comportamento do André modificou-se nos últimos meses. O seu sorriso perdeu-se nas incertezas e no desalento.

Anos 90. Aquele jovem de 19 anos nunca sentiu o encanto do futebol, do nome dos jogadores que confundia com marcas de sapatilhas ou nomes de cães. Muito menos entendia o fanatismo futebolístico. Em si, as artes, a curiosidade, a ousadia e um mundo sem pares. Carros distinga-os pelas cores. O seu lado materialista resumia-se à música, cosmética – o armamento contra a acne –, e livros com temáticas pouco triviais. No entanto, contra a sua vontade, o pai obrigou-o a frequentar uma escola de condução. Nestas, sentia-se em educação física, entre odores inusitados, risadas desconcertantes e prováveis parasitas que afetavam os genitais da maioria dos homens, tal era a comichão que os levava a exibir, ainda que dentro das calças, os órgãos copuladores.

Algumas horas antes daquele momento fatídico, fui o confidente do André.

Aquele homem, cujo sorriso e olhar sempre interpretou de forma paternal, desde tenra idade, chegando mesmo a desejar que fosse o seu pai, dono da Escola, foi o seu último instrutor de condução. Inundado em lágrimas e com a voz trémula, questionou-me várias vezes a respeito da sua aparência, gestos, da imagem que transparecia, por forma a entender o comportamento daquele sujeito. André não entendia que mentes sujas também se vestem de Prada.

— Subitamente, ele perguntou, tentando apalpar-me, se eu estava disponível para uma ménage à trois, num dos seus apartamentos, com outra senhora. Disse querer penetrar-me, da forma suja e ordinária. Querer o meu... Bati contra o passeio, riscando o carro, mas mesmo assim, não consegui  demovê-lo. Mandou-me conduzir em direção à rua das prostitutas e das #¿$?%!¡ ocasionais. Somente consegui questioná-lo acerca da minha família e do que via em mim. Recordei-o ter uma filha da minha idade. De nada adiantou até que gritei: “Não!” A minha mão descontrolou-se e…  

                          
 Ficção baseada em acontecimentos reais, com alteração das personagens e contextos, para o Desafio de Escrita Os Pássaros #4

Comentários

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    1. Muito obrigado, Cidália 🙏

      Beijo e um bom fim de semana.
      P.

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  2. Este desafio põe a nu a tua enorme capacidade de escrever.
    Parabéns!

    Beijos P. P.

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    1. Assim fico sem jeito, Manu. 🙏🙏🙏🙏🙏
      Beijos mil.
      P.

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  3. A dureza da vida que nos ensina que o mal também usa cara de anjo...

    Fiquei presa às palavras.

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    1. Bom dia.
      Excelente frase introdutória, Fátima. Fez-me pensar naqueles que descobrem tal realidade ainda bem mais novos, quando crianças.
      Obrigado pela visita e pelas palavras balsâmicas, atendendo a que escreve tão bem.
      Abraço,
      P.

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  4. Muito bem escrito! Creio que foi o texto que mais gostei até agora! As escolas de condução são uma má experiência para tanta gente! Eu pedi o livro de reclamações mas acabei por desistir da queixa, - fiz mal, -porque a senhora da recepção era um amor e dissuadiu-me. Não fui exactamente assediada mas fui enxovalhada, claro que não me calei e o homem ouviu das boas. Mudei de escola. Na seguinte, tudo excelente. Há sempre alguém que tem uma história desagradável sobre escolas de condução, sobretudo mulheres. É curioso que nunca vi nada disso transparecer no Facebook, onde se fala de tudo,mas em discussões com amigas e conhecidas, sempre, sempre alguém tem uma história. Não é mito urbano. Já sei como hei-de saber onde estão os seus Desafios! Pela hora da postagem! Compreendo que não queira escrever da próxima vez. Já escrevi, no fim-de-semana. Achei que era um bom desafio, tive de pensar um pouco mais do que é costume! Tenho uma novidade. Ontem, mais um Sapinho me disse que não conseguia comentar no meu blogue. Fiquei aborrecida. É chato para mim mas também para quem chega e não consegue comentar. Pensava que isso estava ultrapassado! Então juntei-me ao Sapal! https://belinhafernandes.blogs.sapo.pt/ Em princípio só o irei usar para os desafios. Depois logo se vê. Bom trabalho!

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    1. Obrigado pelo seu testemunho, Belinha.
      Conheço o André, também fui muito humilhado na mesma escola de condução. Não sei se, por muito novo, já estar no ensino superior e ter pouca vocação para a condução. Tal como o André, o meu pai não me protegia. Ele esteve na Alemanha, a trabalhar na década de 70, na Mercedes. Consigo trouxe carte de recomendações. Os nossos estilos de inteligência eram diferentes. Um dia, talvez na 2.ª aula, o instrutor faltou-me ao respeito. Qualquer coisa relacionada com a embraiagem. Tentei dizer-lhe, ocultando todos os palavrões que ouvi e concomitantes designações da minha pessoa. Naquele dia (estou a recordar tudo, até porque lhe escrevo da mesma sala), após relatar o sucedido, também ele chamou-me "burro". Nunca mais falei a respeito. Só queria reprovar. No dia do exame de condução ia furioso, pois tive de faltar a parte da aula de Fisiologia Geral. Contudo, calmo. O meu pai preparou-me muito bem em estradas complicadas. Ou seja, o excesso de velocidade que me foi pedido, as curvas, contracurvas e o estacionamento em espinha, que nunca tinha feito, em nada me atrapalharam. Mesmo assim, estava convicto que iria reprovar. Quando me deram o documento que substitui a carta de condução nos primeiros tempos, que deceção. Desenvolvi uma fobia à condução - amaxofobia.

      Relativamente ao sistema de comentários, estou muito indeciso quanto à implementação ou não do Disqus. Para o utilizar, o leitor tem de ter conta neste sistema, no Facebook, Twitter ou Google. Demora um pouco a carregar (é o sistema que utilizam em muitos dos jornais eletrónicos). Tem ainda a vantagem de não perdermos nenhum comentário, em virtude da confusão de emails que se geram na nossa caixa de entrada. Não sei junto a quem devemos reclamar perante as dificuldades em comentar. Na semana passada, tinha sessão iniciada aqui e na minha conta profissional. Também eu não conseguia responder. Nem o modo anónimo era-me permitido! Hum! Algo me diz que depois deste comentário farei uma visita ao Disqus.

      Como previa, apesar da minha ligeira aversão ao tema, não tive tempo de esboçar uma só linha para o Desafio. O caso de alunos (ex) que deteto em risco de suicídio tem vindo a aumentar. Estes, desde que me passam pelas minhas mãos, são como se fossem meus filhos, pelo que não consigo ficar parado.

      Relativamente ao Sapo, sugiro que mensalmente exporte o que lá publica, por exemplo, para o seu Blogspot.

      Um bom fim de semana.
      Abraço,
      P.

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    2. Olá! Fui agora responder aos comentários no blogue do Sapo e a experiência é um pouco mais agradável do que aqui. Em tempos instalei o Discus mas depois deixei de usar. Ainda a propósito da condução, deixei de conduzir há uns anos, vendi o carro. Usava-o pouco e comecei a gastar imenso com a substituição de peças que se estragavam por estar na rua. Nunca gostei muito de conduzir. Nas cidades é a confusão, na estrada o tédio. Por vezes sinto a falta do carro mas aprendi a contornar , o que nem sempre é fácil. Os transportes públicos não são ideais, há algumas linhas boas, outras problemáticas. Aproveito sempre esse tempo e também gosto de conhecer pessoas em viagem e de observar comportamentos . Há dois anos li um livro e fiquei com uma enorme vontade de fazer uma grande viagem de comboio. Mas ficou-se por isso. Também os centros de exame e o tipo de exames que são feitos, os teóricos, em especial, são - ou eram - outra nódoa. Engenheiros que acham que são muito importantes, a tratarem os candidatos como estúpidos qualquer que seja a sua idade, como se responder a um teste de escolha múltipla fosse uma coisa transcendente e especial e eles uns deuses. Esses testes, muito mal formulados, com um português ridículo, imagens desajustadas às questões, deliberadamente colocadas ali para gerarem confusão, destinam-se, quanto a mim, não a apurar os conhecimentos dos candidatos mas a promover o seu insucesso. E da vez seguinte que paguem mais uns euros. Aí vi adultos, homens e mulheres, a serem enxovalhados.Aquilo parecia o quartel e nós a tropa. Também ouvi histórias de candidatos a condutor pagarem aos examinadores para passarem. Isso comigo não aconteceu, vá lá.

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    3. Trouxe-me uma memória que já tinha esquecido. Estava no 2.º ano de curso quando fiz o exame de código (ou nas férias do 1.º?). Assisti a um desses episódios. Insurgi-me contra o engenheiro! A humilhar um construtor civil ou trabalhador das obras. Logo perto de mim, que no 11.º ano chamei incompetente (com todas as letras), à professora de Português, porque, além de favoritos, não apoiava os colegas com dificuldades... Sim, a minha nota ficou em risco. Por sorte, ela foi substituída por outra. De nada me arrependo. Quem nos garante que são engenheiros? E o respeito? Casos de suborno eram mais que muitos. Recordo pessoas vindas da Madeira para a tal escola de condução... Será que me tratavam mal por eu não alinhar no esquema, mesmo nunca tendo sido aliciado?

      Aqui, os transportes públicos são muito escassos. Por exemplo, vivo a 3,5km do centro de Santa Comba Dão. Se a minha mãe quiser ir às compras e eu não esteja disponível, a única alternativa é o táxi. Só que, neste meio de transportes, as taxas diferem, por exemplo, das de Coimbra ou Viseu, onde se paga muito menos. O interior está esquecido.

      Enquanto lecionei por vilas e cidades da Serra da Estrela, creio que mesmo que conduzisse, continuaria a preferir o comboio. Como é bom contactar, escutar e sentir aquelas pessoas que vão a entrar e saem ao longo de mais de 100km. Quantas aprendizagens. O mundo real. Aquele que os nossos políticos desconhecem. Muito aprendi a respeitar e compreender alguns dos Encarregados de Educação das minhas direções de turma, durante aquelas viagens.

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Este blogue é feito de histórias reais, emoções, prazeres, opiniões e alguma ficção. Também de pessoas que interagem e de uma mão que se estende, mesmo que cheia de nadas.

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Paulo.