Amor Marginal

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Anos 90.

Os raios de Sol que um dia urdiram os laços, entre aqueles dois seres, de personalidades opostas, mas desejos semelhantes, equivocaram-se no tempo e no espaço. Um horto do silêncio disseminou-se nas entranhas de um ser belo, frágil, contido e de valores inegáveis.

Naqueles anos, há semelhança de tantos outros, nem todos os amores eram aceites. Muito menos compreendidos ou correspondidos. Já a Natureza há muito pautava pelas imperfeições, designadas como “aberrações”. Afinal, sempre foi fácil julgar e avaliar as aparências mais incautas. Assim aconteceu, naquele baile de máscaras, quando a razão sucumbiu ao desejo.


Ela, culta e de aspeto desajeitado, a roçar o “masculino” daqueles tempos assimétricos, - na minha perspetiva, um fluxo de inteligência e cultura -, levou-lhe uma rosa-vermelha e intensa, tamanha era a sua paixão. A outra, encantada, logo aceitou. Seguiu-se um “Gosto de ti!” e a expressão da outra mudou, dando lugar  ao repúdio da sua inércia moral e intelectual. Para não falar em respeito. Em tempos, tinha-lhe confidenciado a vontade de fazer amor com uma mulher. Porém, ela, de cabelos grisalhos, encerrava um sofrimento profundo: o da incompreensão. O que fazer perante aquela expressão, aquele olhar, o assumir do seu engano para com “o outro”… Pela primeira vez pensou ter direito ao amor, mas a incompreensão, domou todos os momentos da sua vida.


Ao contrário do que se possa pensar, ela não era ela. Pelo menos, uma “ela vulgar”, como tantas outras. Dos seus atos, o cavalheirismo. Atinente aos genitais e carateres sexuais secundários, a apetência para a mutilação, no mutismo profundo. Nela há um Homem atormentado, sitiado por fantasmas humanos deste nosso mundo, numa profissão desvalorizada e de uma sociedade cruel.


Os espinhos das rosas que com tanto amor semeou, levaram-na rumo ao afloramento rochoso castrado e impiedoso. O meu brother amado, seja ele como for. Estendi-lhe a mão, a minha, imperfeita e nem sempre suave, mas a falésia é ali mesmo ao lado. Um ponto, naquele grito de dor.



                           Texto baseado numa realidade dolente para o Desafio de Escrita Os Pássaros 

Comentários

  1. Bem vindo ao lado de cá! Não vou comentar agora iria fazê-lo demasiado apressadamente! Volto amanhã. Tenho mesmo de ir dormir agora.

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    1. Nada a agradecer.
      Estou com alguma dificuldade em decidir manter este sistema de comentários ou recorrer ao Disqus.
      Doce noite.

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  2. Olá.
    Ontem, comentei, enviei, mas nada aparece aqui.
    Está tudo bem?!
    Beijinho

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    1. Desculpe, Maria.
      Creio não ter recebido o comentário, mas como ainda estou a aprender...
      O Disqus agiliza o processo, mas requer muito tempo para efetuar o login
      Agradeço o seu apoio.
      Bjs meus.

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  3. Confesso que desta vez não consegui ler nas entrelinhas.Talvez o cansaço não ajude.
    A escrita como sempre é irrepreensível. Mas do que entendi gostei. Fiquei confusa com este parágrafo "Ao contrário do que se possa pensar, ela não era ela. Pelo menos, uma “ela vulgar”, como tantas outras. Dos seus atos, o cavalheirismo. Atinente aos genitais e carateres sexuais secundários, a apetência para a mutilação, no mutismo profundo. Nela há um Homem atormentado, sitiado por fantasmas humanos deste nosso mundo, numa profissão desvalorizada e de uma sociedade cruel." Se era uma questão biológica ou psicológica.
    Continua a tua escrita o teu blogue quem perde com isso é quem perde um blogue de qualidade.

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    1. Obrigado pelas tuas palavras e compreensão, Flora.
      O parágrafo em causa não tem entrelinhas. Trata-se de uma colega e amiga (brother) transexual. Algo tão pouco falado naqueles tempos. Como tal, abrange a identidade. Muitas vezes, por exemplo, em redor das mamas, utiliza "uns trapos", por forma a evitar que se notem. Rejeita os sutiãs, as cuecas femininas, etc. Não entendo o preconceito existente para com estas pessoas que sofrem... Como sofrem!
      A pornografia é um péssimo recurso para confundir as pessoas. Imagina-te, na nossa profissão, com uma família muito conservadora (e mesmo que não fosse!). Como evitar ações maldosas por parte da comunidade educativa, caso optasse por mudar de sexo!
      Grande abraço.

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  4. Cá estou de volta! Não sei que opção activou para os comentários. Mas é complicado. escrever aqui. Não são visíveis os campos para escolher como comentar: Seleccionar perfil, Google, Nome ou URL, Anónimo. Apenas se vê isto: (G
    Eu optei por mudar para a opção de comentário "Página inteira". Parece ser mais fácil comentar aí.
    Andam várias pessoas a aliciar-me a mudar para o Sapo! Mas não sei se quero isso. Estou muito habituada a isto embora reconheça fragilidades: a interacção é mais dificultada.
    O seu texto lembrou-me vários filmes- sou muito cinéfila. Nos últimos anos forcei-me a ver menos cinema para poder ler mais pois as duas actividades competem pelo mesmo espaço e andava a sentir a falta dos livros. Por alguma razão, só gosto de o fazer à noite! O cinema tem sido um meio poderoso para tornar estas realidades mais acessíveis. O preconceito e a intolerância são ainda enormes! Não acontece apenas no seio de famílias conservadoras. As pessoas sentem-se ameaçadas por quem é diferente e em vez de se preocuparem em procurar informação para se esclarecerem e assim vencer esses medos, rejeitam, escorraçam, diminuem os outros. É lamentável. Excelente escolha de Gone, uma boa canção da Madonna, para acompanhar um caso de amor incorrespondido, ela sempre foi melhor quando escrever sobre o desamor do que sobre conquistas bem sucedidas.

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    1. Afinal, não é difícil de comentar, Belinha.

      Caso pretendamos utilizar uma das nossas contas "Gmail/Blogger", antes de optar por "responder" ou "introduza o seu comentário", a nossa sessão no Google deve estar ativa. Para uma boa interação, optar por "responder" a um comentário é a melhor Trata-se da que utilizei, ao esboçar este comentário/resposta.


      Se pretender escrever um novo comentário, responder de forma anónima, ou com recurso ao nome/URL, basta selecionar "introduza o seu comentário ou "responder", mesmo ao lado do avatar. Logo surge, frente a comentar como, a janela deslizante para que, neste caso, possa escolher entre Nome/URL ou Anónimo.

      Abraço

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  5. Boa noite, Belinha.

    Muito obrigado pela observação. Já alterei os comentários, tal como sugeriu. Das plataformas que conheço, a do WordPress é a melhor, mas não é fácil integrarmos todo e qualquer componente. A segurança é muita. A Sapo continua a ser a minha última opção, por razões de vária ordem. Todavia, estou a deparar-me com dificuldade na componente dos comentários. Gosto de vê-los encadeados, como conversas/discussão que são (ou deveriam ser), e de ser notificado somente em relação às respostas que me são dadas. Estou a pensar integrar o sistema da Disqus. A única desvantagem é que, com este, os anónimos não podem comentar e demora um bocadinho durante o login, queiramos utilizar a Google,o Twitter, Facebook ou até mesmo o Disqus. Todavia, é o sistema utilizado, por exemplo, nos jornais online. Gosto muito da apresentação.
    Algo que já constatei: o blogger está a mudar.


    De facto, também sinto essa incompatibilidade entre a 7.ª arte, no meu caso na forma de séries, e a leitura. Contudo, quando enriquecedores, complementam-se.
    A realidade que aqui trouxe abrande toda a sociedade. Quantos filhos não continuam a ser convidados a sair de casa dos pais? Aceitar, acompanhar e apoiar um processo tão difícil para os transexuais, parece mais difícil do que condenar, marginalizar e abandonar. Em muitos casos, a vergonha fala mais alto. Ao que parece, o amor para com as crias já não é incorruptível. As palavras ditas durante a gestação e o nascimento são lançadas ao vento, numa questão de segundos.

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  6. Gostei do tema que desenvolveste com excelência.
    Um tema nada fácil de abordar e a não aceitação é um estigma que dói a quem sofre da transexualidade, não sendo ainda aceite pela sociedade.

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    1. E tanto há a dizer, Manu.
      Os transexuais sofrem tanto, tanto. tanto...
      Beijo grande.

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  7. Excelente texto meu amigo. Precisamos de mais textos assim na internet.
    Fiquei feliz em saber que o blog está de volta.
    Grande abraço aqui do Brasil

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    1. Gentileza tua.
      Temos sempre forma de contornar a censura. Estou a começar do zero porque assim o quis. Caso contrário, no WordPress tenho lá quase tudo. 😇
      Abraço deste lado do Oceano.
      P.

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